Rio Senna, Paris/França - Janeiro, 2010

sábado, 21 de abril de 2012

Marrocos - Parte 4

Marrakesh, 2 de Junho de 2011






“Un viaje despierta en mi lo mismo que siente una madre por un bebe insoportable, diarreico y nervioso: me importa un bledo lo mucho que me haga sufrir. Porque lo adoro.”

        O trecho que escolhi acima foi extraído do “Comer, Rezar e Amar” versão em espanhol, que foi o livro que escolhi para levar nessa viagem. O escolhi porque dentre muitos trechos que me identifiquei com a autora, esse foi o que mais definia essa tristeza que me inunda quando as coisas dão errado - eu perdi meu vôo de volta à Espanha - mas que mesmo assim não me impede de sentir aquela ânsia maravilhosa, diante do novo planejamento para o próximo destino. Não mesmo!

       Na beira da piscina  - do Ibis Marrakesh ao qual me instalei - pude constatar que a mulher brasileira exerce um fascínio sobre os homens do mundo inteiro. Acabei de comprovar isso não por possuir um biquíni característico carioca (também pudera depois de tanto tempo vivendo em solos fluminenses) e muito menos pelas curvas já que até o momento ouvi apostas da minha nacionalidades entre a inglesa e a italiana (?). Comprovei isso pela alegria: - Where are you from? - I'm from Brazil. Acreditem, o Brasil está com uma moral aqui do lado de fora. Durante esses dias no Marrocos, eu senti que quando eu falava que era do Brasil, algo mágico no semblante do interlocutor acontecia. Um fascínio bobo, quase infantil que seguia das típicas perguntas sobre samba e futebol. Algo diferente de falar que sou brasileira na Espanha, coisa que evito. Constatei pela cara amistosa que se abre ao falar do Brasil: “Brazil, oh!”. O argelino que eu conversava no deck me colocou pra falar no Skype com seu irmão, este na Argélia, de tão feliz.



       Cheguei do deserto ontem e uma das meninas que viajou comigo – a da Indonésia - era doida com pão de queijo, ela já foi ao Rio e deu mole de comer feijoada à noite e quase morreu de revertérios. Tinha também uma jornalista da Singapura que a cada parada tinha que sistematicamente avaliar o café e o banheiro. Isso não tem nada a ver, mas queria comentar.

Fiz mais vídeos ao longo do percurso - todos beeem amadores, claro! - e segue em ordem desde a estrada pelo Grande Atlas, passando pelo Aît Benhaddou (Patrimônio da Humanidade) até chegar ao deserto de Zagora dando uma palhinha de cima do camelo.



Estrada à Aît Benhaddou 

Chegando no Aît Benhaddou 

                                                                 
                                                                Descrições verossímeis (sic)

      O deserto foi algo que me tocou bastante. Porém até chegar lá, viajei cerca de 10 horas em uma 4 X 4 mais 1 hora andando até chegar ao acampamento beduíno.






O "Grande Atlas"



         Falar da minha experiência no Marrocos vai ser tão complexo quanto foi organizar a viagem. Organizar minha viagem foi além da questão logística óbvia de hotel, aeroportos, mapas, shuttles, mas principalmente lidar com questões adversas como clima, língua, culinária e cultura islâmica tornaram meu planejamento sensível. Esta última então nem se fala: Pro clima – protetor, pra língua – um mini-dicionário de francês, pra culinária – Fortasec … e pra cultura? Não vim para um país islâmico para ofender à ninguém e tampouco para ser mal interpretada. Como proceder?
Acho interessante a parte em que a cada viagem melhoro em um ponto e no mesmo instante surge uma demanda impensável anteriormente. Tenho o costume de sempre antes de viajar imaginar todos os problemas que poderia ter e já ter em mente pelo menos umas 3 alternativas de como sair dele. (Mas impressionante como ainda não             achei a solução pra deixar de perder vôos! ha-ha)

'Ah, Renata, mas como prever problemas?' Uai, auto-conhecimento. Eu sei onde dói em mim. Sistemática que sou, tenho uma lista com as minhas principais falhas em viagens (Pontualidade nos aeroportos nem se fala!) Imagino problemas normalmente baseados na minha personalidade e no meu bem estar físico e mental. Falando assim, parece bobagem, mas em vocabulário bem chulo: “Quem como prego, sabe o fiofó que tem.” Se eu ver que eu posso bem, senão, bato em retirada.
Imagino também os problemas baseados nas diferenças culturais. Prestem bem atenção: É importante o estudo prévio do cenário de um país. Senão, você vai vir pra cá com SEUS OLHOS e não há uma busca empática em compreender como as coisas são e porque são no destino. Estou falando tudo isso depois de 2 meses de preparação para ficar quase uma semana no Marrocos e pude constatar. Tem até uma oração que eu lembrei quando estava aos prantos de emoção no deserto: “Quero olhar o mundo, PAI, com os olhos cheios de amor e ver teus filhos como tu mesmo os vê...”




Mais casas de "berbérie"



Curvas sinuosas
         Não dá pra entender o porque de algumas coisas, algumas atitudes do povo marroquino se não procurasse me informar o quanto antes. A minha preparação constituiu em ler cerca de 50 sites diferentes, conversar com quem já veio, conversar com mulheres que andam sozinhas por aqui, busquei comunidades na Internet sobre o assunto e tive a benção de conhecer através do blog, um marroquino que fala português que se encarregou de desmistificar o meu destino. Juro que com essa especulação toda sobre tráfico de mulheres e ser trocada por camelos, tive medo. Das amigas mulheres que conversei, todas absolutamente, disseram para eu não vir sozinha, pois seria absolutamente perigoso. O fato é que eu não desisti frente à tanta pressão e eis que estou aqui. Busquei pessoas do sexo feminino que haviam estado aqui sozinhas para me darem suas impressões e recomendações. Não haveria de ser Renata Eloá a primeira a querer ir sozinha pro Marrocos. Algumas mulheres fora determinantes na construção do planejamento: A Poliana, brasileira que tem noivo no Marrocos e sempre vem; a Rita que é portuguesa e mora aqui e uma agência chamada AMO-TE MARROCOS formada por 3 portuguesas que são 'designer de viagens' (um ''kit kat'': adorei esse conceito).


          Tudo isso me proporcionou mais confiança e sem os disse-me-disse de quem nem veio, mas acha que eu não devia ir porque anda vendo O Clone. Eu acredito que seja uma questão de como interpretar, se você não conhece, você vai julgar à sua maneira baseada em mitos e estereótipos geralmente criados por uma mídia cruel – principalmente quando se trata de países islâmicos. Porém, a partir do momento em que você busca entender, a coisa muda de figura. Bom, pelo menos comigo a coisa funciona desta maneira.



         Pra fechar este post, gostaria de expor duas frases que me marcaram muito na viagem. Elas foram ditas por 2 homens diferentes que conheci. “Take your time” disse o beduíno e “Love comes with time” disse o salva-vidas do hotel - como disse no post anterior, tive um date. Nos dois momentos – contarei em uma outra hora – chorei compulsivamente. Não me contive, foi mais forte. Sofri uma catarse – diria uma ex-professora da UFF em aulas de teatro grego – vivi momentos catárticos nesse país, que culminaram em uma noite estrelada no deserto de Zagora.